2006-01-31

Ausente



Eu podia estar ausente,
simplesmente ausente
ou nulo,
como corda de viola, por tanger,
sem que nada se prendesse ao meu olhar
ou às mãos,
e que o presente
fosse o instante de esquecer.


Foto de Denis Chaussende

2006-01-30

Carta



Endereço, data, nome...
Espero que enfim estejas bem.
Ou não estás?
O amor faltou-me
e a saudade vai e vem...

Cego dos cinco sentidos,
num corpo exausto, a gritar,
a memória
esquece o olvido,
o tempo todo a lembrar...

Perco o chão por altivez,
perco o chão por humildade,
perco-te a ti,
duma vez.
Não me encontro na cidade.

Levo a minha vida assim,
neste limbo.
Ou nesta morte?
Não queiras ter igual sorte,
nunca mais digas que sim.

2006-01-28

Cardo



Cardo,
que não se deixa tocar,
guarda o pudor,
e só quando o fogo o consome,
se abre em flor.


Foto daqui

2006-01-27

Ritual do silêncio



É do ocaso que te quero falar:
- Da angústia que se esvai;
Com ela o sol.
Da hora em que o silêncio ainda é tão leve
que nem sequer a brisa o trai.

Verás o tempo estagnar
no intangível esbater da cor.
Os cinzas e os cobres em que repousam
os verdes e os azuis.

Quero falar-te do desassossego dos pássaros,
prenúncio da calma de mais uma noite,
e, da paz intensa, mas tão breve,
que gostava de partilhar contigo,
meu amor.


Foto de Ana Filipa Scarpa

2006-01-26

Por distracção



Ao fim de tantos anos em silêncio
descobrimos
que uma lágrima ainda sulca o rosto árido.
Com ela cultivamos esquálidos jardins
na varanda solitária
que cuidamos como parte de nós próprios.

Mais tarde, diremos "Bom-Dia"
aos pardais tranquilos no meio das flores
e, do outro lado da rua,
talvez alguém, distraído, nos sorria.


Foto: The Black Knight

2006-01-25

E depois...



E depois, não sei que mais dizer-te,
luas tristonhas morrem na calçada,
o calendário foi rasgado e destruído,
das luas que virão, não sei nada.

Queres debicar outros frutos proibidos,
não acreditas em cometas apagados,
e eu, francamente, passo bem sem conhecer-te,
não busco vidas nos perdidos e achados.


Foto de Júlio Miguel Sampaio

2006-01-24

Imagem



Fugiu-me abrupta a imagem do espelho
quando em matinais abluções num dia azedo
pus a língua de fora e lhe fiz Baaa!

(É um reflexo natural de medo,
sobretudo se o carão tender para velho
e estiver pouco contente por estar cá.)

Que direi, mais tarde, no emprego
se confrontado com gravata às três pancadas,
a barba hirsuta, a cabeleira mal riscada?

- Que a fugitiva anda livre pelas estradas,
e o original apreciaria algum sossego
enquanto espera pela imagem renovada.

2006-01-23

Pequeno poema de amor II



Pouco sei de ti,
ou dos que antes naufragaram
nesta praia negra.

Sei que muitos anos se passaram
sem estares aqui,
em que a noite e o silêncio foram regra.

Esquecerei que as estrelas se apagaram
se a tua luz iluminar o que não vi.
Isso me chega.


Foto de Joaquim Chitas

2006-01-22

Poemeto conformista



Vieram como demónios,
olho guloso, a luzir,
fizeram crer aos campónios
melhor vida estar p'ra vir.

Mandaram tocar harmónios
fizeram a malta rir,
espertezas, em elixir,
fragrância de ouro, em perfume,
mas de repente,a seguir,
negros perfis de azedume,
tantas aves a partir...

2006-01-21

Fátima revisitada



Para um urgente restauro da devoção
foi requestada a Santa ao seu altar
e levada ao olival em procissão.

Recolhida, a vidente ajoelhou
enquanto as horas caíam de mansinho,
e o silêncio tocou a multidão
distraída, a pouco e pouco, de rezar
por discretas flores a tremular,
por besouros zumbindo junto ao chão,
pelo voo nupcial das andorinhas,
p'los girassóis em suave rotação.

"Olhai para o sol!" gritou, abrindo os braços,
"Vede o milagre, sem filtros nem cortinas,
verdade marcada a fogo, nas retinas!"
A luz cintilou nos olhos da vidente,
e os prodígios sucederam de repente:
- Agitaram-se paralisias comprovadas,
caíram pétalas do céu em longas regas,
manhãs canoras foram vislumbradas,
juraram outros que choveu dinheiro;
Cegos de nascença viram nevoeiro
e houve vistas sãs, tornadas cegas.

Questionaram alguns a realidade,
as curas, os mistérios e a verdade, mas
lembrou a vidente: "Eu bem vos disse
que sempre houve quem visse
e quem não visse".

2006-01-20

Rosa



Conteve-se a mão suspensa,
sobre a rosa, a querer abrir,
suspensa, a mão que contempla,
e a que quer possuir.

2006-01-19

O quadro



Gostava de inventar um quadro teu
com cores para além do arco-íris,
(paleta que um poeta me ofereceu...)
fixar a tua alegria, se sorrires.

Mas falha o engenho e não há tons,
quando a beleza é calma e entorpece
não logro retratar a alma, os dons,
e o meu entusiasmo desfalece.

Talvez azul distante no olhar...
talvez negro profundo nos cabelos...

Inderdito, quedo-me a sonhar
com amores irreais, com a alegria
de ficar, sôfrego dos teus desvelos,
parado, frente a uma tela vazia.

Foto daqui

Regresso, agora...



Regresso, agora, ao tempo em que o rio
corria azul, como os meus dias,
e fixo, no céu trémulo de gaivotas,
o perfil negro e rigoroso dos navios.

Oh! Navios esquecidos, aviltados no lodo,
quem soltará as fatais amarras a que vos prenderam,
apodrecendo na mágoa,
pelos séculos, na mágoa, flutuando...

Estridências de sirenes,
soluços sincopados da máquina,
calem o marulho das vagas contra os cascos
que definham, perdidos, entre marés...

Buzinas de nevoeiro,
sinos de convés,
abafem o murmúrio sussurrado nas amuras
e sufoquem este silêncio, pródomo da morte!

Solidão nocturna, guardada no peito,
voa sobre o rio que esta lua envelheceu,
que o vento te leve, por entre ondas fosforecentes,
até te perderes no mar, coberta de cinza e prata.

2006-01-18

Coleóptero



Os meus olhos são polifacetados,
fragmentados e complexos estroboscópios,
estilhaçam cada ser, em mil bocados,
e recriam-no em dois caleidoscópios.

És uno, mas para mim és muitos mais,
em conjuntos de viscosa carne mole,
sombras de nojo atravessam meus vitrais,
quando a voar, ofereço as asas ao sol.

Se um insecto é repugnante, ao ser humano,
eu estou fadado a ver, tantos de ti,
e a recíproca é verdade, não te engano:
- Que primordial horror, quando te vi.


Foto de Ricardo Laske

Ausente



Eu podia estar ausente,
simplesmente ausente
ou nulo,
como corda de viola, por tanger,
se que nada se prendesse ao meu olhar
ou às mãos,
e que o presente
fosse instante de esquecer.


Foto daqui

2006-01-17

Romã



Repara,
há corações como a romã:
- Enormes,
abertos
ígneos corações.

Na despedida de Sophia



A morte chamou Sophia em noite de lua cheia
cobriu os pinhais de prata,
de cinza a maré vazia.

Da branca lua ascendente desce o olhar de Sophia
aos búzios na praia nua,
e aos pinheiros sobre a areia,
adormecidos à lua
que subia, que subia...

2006-01-16

Voz



O poema perseguiu-o,
de onda em onda.
Por isso se não calou
a voz do mar.

Imagem de ChromaScapes

Moto contínuo



Que seria do vento sem as ondas?
Que seria das ondas sem as fráguas?
Que seria das fráguas sem gaivotas?
Que seria das gaivotas sem ter cais?
Que seria do cais vazio de mágoas?
Que seria das mágoas sem o vento?


Foto daqui

2006-01-14

Redonda Lua



A Lua-Cheia (diz-se), propicia o nascimento,
porque - vede as marés - atrai naquele momento
a água, que nos outros mares recua.

Por mim, creio,
a vida só surgiu
sob a redonda luz da Lua;

A primeira bactéria emergiu,
tímida e nua,
e foi esterilizada pelo Sol,
que então subiu

A segunda aprendeu,
como se viu ...

Repouso



Quando anoitecer,
repousa, e acerta o passo com o tempo.
Não perturbes a sombra, o seu ritmo lento,
e ominoso...

Nem te acordará a coruja, que te assombra,
pois o seu voo nocturno é silencioso,
embora violento.
Por isso, pousa.

2006-01-13

Um adágio sobre o amor



Sabes que me contento com tão pouco,
uma flor,
um sorriso,
um simples gesto;
Aos sentimentos profundos, de tão ocos
corto-os cerce e não amo nem detesto.
Saboreio sim, a curta sensação,
um azul,
um calafrio,
o mar em festa;
Talvez mesmo um amor de ocasião:
- Queima, serena, morre e nada resta.

2006-01-12

"Mizette"



Silêncio, no olhar,
enquanto os passos vibram na esquina,
soltando ecos, no ar pesado
do "boulevard".

Negros, os becos.
Gélida a noite;
De través a chuva,
ceifando o aço,
o "trottoir"...

Indefinidos, os contornos.
Ratos cinza, recolhem-se em antros mornos.
Sinuoso, o fumo, sobe no ar...

Sei-te explicar;
Conheço-te os fantasmas de néon,
e vi-te queimar
mil alvoradas de bourbon.


Tela de Paul Hannon.

2006-01-11

Cântico negro



Sobre o lampadário estilhaçado, há um sussurro de
sílabas ou folhas mortas. Outros fragmentos negros
inflamam este delírio:
- Pássaros de cinza, com olhos espantados.

Quando a cerimónia terminar estarei só. Despojado
de tudo, até dos outros. Num circo de pedra,
onde facas de gelo, ferem mais e mais.
Uma marcha fúnebre (um tambor de lata)
será o meu legado.

A noite balbucia, estou desperto.
Ferozmente desperto, ou à beira da loucura.
Não sei quem por mim fala, mas nem um corvo
poisado no peito agita as asas
e está vivo e vigilante.

2006-01-10

Recomposição



Ofereço-te, no sangue das noites,
três sóis negros, três fúrias, três pecados.
Amortalha neles a alma, ou então acorda
e, se puderes, renega, despedaça!

Dou-te universos, cuidado, não te afoites!
Mas se o fizeres, vai ao fundo, entre os danados.
Desvanece-te sim! (Quem te recorda?)
- Na treva, na miséria e na desgraça.

Ofereço-te, no coração do mar
chaves da vida e céus de primaveras,
refúgios, admiradores, um altar.

Toma a divindade! Hesitas... Porque esperas?
Eis o mundo! Tens o poder de conjurar
forças sem nome, terrores de outras eras.


Foto: Aleksey & Marina

2006-01-09

Ditosa Pátria



No fim, há uma rosa em céu de natas,
caem esqueletos velhinhos da tripeça,
" O favorzinho, Doutora, não se esqueça..."
saltam palhaços sobre campos de batatas.

Rolam bombos pelas escadas do palácio,
desfila o circo e seu cortejo de elefantes,
frente aos heróis, empalhados, nas estantes,
as donzelas chupam gelados de pistachio.

O Rei de Copas ergue então um peixe-espada,
soa mais alto o tinido das canecas,
e por sobre o colorido das carecas
diz o bufão: "Esta é a ditosa pátria, minha amada."

Imagem daqui

Lua



Conheço alguns, para quem o mundo
sempre foi cinza-suave,
como se vivessem há mil anos
sob a lua;
E, quando o sol os faz humanos;
fogem da rua.

2006-01-08

Nunca saberás



Nunca saberás do horror.
Do tempo que cristaliza a árvore morta,
da última folha que cai,
da raiz apodrecida pelas larvas.

Do frio lento que percorre o lenho,
das navalhas do vento
nunca saberás.

2006-01-07

Equinócio



No horizonte enegrecido do poente
sopra o hálito morno do equinócio...

Sentado, algures num cais,
(algures em mim)
ao fim da tarde,
vejo desfilar com a maré
os despojos iníquos da cidade.

Odores de algas podres
peixe seco,
tédio antigo,
desfilam com a maré.

O indecifrável,
o que já está,
o que não é,
o que será,
desfilam com a maré.

Guindastes-sentinelas,
perfilam-se em contra luz à beira-rio.
Horas tensas, barco que ainda não partiu,
esperanças vagas, enfunadas como velas...

2006-01-06

Escrita



Tamborilar de gotas no telhado:
- A escrita da chuva.

Do pôr do sol, afinal...



Do pôr-do-sol, afinal, ficaram aves;
Ou se quiserem, um vago chilrear...

Mas inda há pouco, flamejante, ardia o ar
e nele fervia uma pulsão intemporal.

Povoas o meu mundo de surpresas!
Iluminas e confundes as certezas,
nesta luz feroz, solsticial.

2006-01-05

Gaivota



A gaivota plana num grito circular,
aflora as águas, ao de leve,
numa carícia.

Paira acima dos vendavais,
que avida é breve,
esfinge do cais.

Companheira do luar,
a gaivota plana, num grito circular
sobre a tempestade, ao de leve,
curta delícia.

A gaivota é a saudade dos navios,
é a certeza de voltar
de portos incógnitos e frios.

A gaivota plana num grito circular,
é a esperança,
é o próprio mar.

Prece



Dá-nos Senhor, a benção de emitir luz,
a protecção da carapaça que se enrola,
dá-nos a paz, que alimenta e reproduz,
e quando formos atacados faz-nos bola.
Dá-nos Senhor o poder ilimitado
de semear na paz marcas de guerra,
de agredir, em largo gesto articulado,
e trucidar com letal ferocidade.
Dá-nos a vida tranquila, rente à terra,
vestindo as cores, garridas, da vaidade
ou a inefável emoção de ser alado,
mas tira-nos, Senhor, a humanidade.


Imagem de The Computer Graphics Society

2006-01-04

O livro



Foi lançado o livro com os poemas de Manuel Filipe. São 390 páginas que reunem poemas escritos entre 1969 e 2004. O livro pode ser desde já encomendado aqui e será enviado à cobrança. O preço é 12 euros mais portes de correio.

A minha cidade



De olhos vazios e almas fechadas,
cirandam nas ruas da minha cidade.
Para não se reverem nos rostos dos outros
e toparem à esquina com a crua verdade,
miram os sapatos, as pedras molhadas.

E, contudo, é bela a minha cidade.

O chinês das gravatas, atrás do Arsenal,
tabuleiro ao peito, expressão parada,
sonhando com a pátria - longínquas imagens,
tempos que vão maus - ainda não vendeu nada,
os pobres não usam e quem compra afinal?

E, contudo, é bela a minha cidade.

Angústia no rosto e na mão que se estende,
pela Baixa acima, mal o lobrigamos,
estirados exibem apelos ilegíveis.
- Minha cara amiga, para onde é que vamos?
- Ganham-se fortunas na pedincha, compreende?

E, contudo, é bela a minha cidade.

Rossio que se abre em braçados de flores,
de floristas cansadas na tarde já fria,
cravos e tulipas extasiam os turistas;
e os filhos que esperam na casa vazia?
Triste primavera, que ocultas mil dores.

E, contudo, é bela a minha cidade.

De cruzeiros dourados de sol e vaidade,
de becos sem tempo, de escuras portadas,
saem esses homens, cinzentos, sem rosto,
que de olhos vazios e almas fechadas,
cirandam nas ruas da minha cidade.

Reparti os sonhos



Reparti os sonhos sobre a mesa
e juntei punhados de cinza
ao inventário da incerteza...

Ficou-me no peito este cavalo que manqueja,
fechado com as mágoas.
Guardei a vida num baú sem história.

Oh! Metade de mim,
suspensa nas águas
onde não chega a memória!

Outro adágio sobre a morte



A alegria do amor é uma centelha,
fugaz e trespassada por espinhos,
que trocamos, quando estamos sozinhos,
pela da morte,
(vela o sono moribundo
dos já desenganados deste mundo...)
que é o riso descarnado de uma velha.

Dia azul



Num dia azul, meu amor,
Irei contigo.

Porque é fatal partir,
(há outras ilhas)
porque a alma se vai embalando de vazio,
porque o corpo definhará com a espera.

Anunciado já o fim das maravilhas,
desterrei os meus olhos pelo rio
até ao mar,
cintilante refúgio da quimera...

E de repente
no ar vibrou, breve e plangente
o apelo insistente da sirene;

Largaremos lentamente em fumo e sonhos,
entre as gaivotas que pairam no poente.

Cântico sem esperança



Nos confins da raiva, de dentes cerrados
nas ânsias da angústia - prantos não chorados,
corre-se para a morte, que a esperança escasseia,
esquecidos ideais, dispersos na areia.

Caimos por fragas de fauces abertas,
olhos escancarados, nas almas desertas;
Sonhos de criança volteiam no ar,
e, descem connosco, ao fundo do mar.

Na treva adensada, em vigília dorida,
corpo extenuado da longa corrida,
erguemos às estrelas um lírio selvagem...

Desafiada a vida, esgotado o prazer,
sem norte nem sorte, que vamos fazer?
Ser mais outro vulto, de pé, na paisagem?

Flor vermelha



Poderia amar-te na aurora das revoluções,
com o amor alucinado
dos anarquistas loucos,
em caves desertas e cinzentas de fumo,
sob furacões de balas e multidão,
no delírio sangrento
da queda da ordem
e das tiranias

Amar-nos-íamos!
Amores crispados,
amores profanos,
amores inquietos de pólvora
e arame farpado.

Ficaríamos depois,
ombros nos ombros,
alheios às chamas,
olhando a imensa flor vermelha
irrompendo
por entre os escombros.

Balanço



Sei que para lá de ti,
há outros rios, outros sóis, outras marés,
que eu não aprendi.
Mas quero-te, apesar daquilo que não és.

Sei que para lá de ti,
há castelos com tesouros que não mereço,
um céu que ri.
E amo-te ainda, por aquilo que desconheço.

Sei que para lá de ti,
espreitam negruras e carreiros de solidão,
que já percorri.
Partir, será ainda solução?

Sei que para lá de ti,
há maravilhas que não me podes dar,
e que eu pedi.
Pode um egoísta como eu, saber amar?

Regresso



Volto a casa,
com os olhos cansados de mortos
e negro das cinzas que caíram
de jardins incendiados.

Volto a casa,
Com a alma em farrapos, sem sorrir,
por todas as auroras que ruíram
e pelos restos de cravos decepados.

Volto a casa,
perdidos que foram os meus portos,
vergado pelas noites sem dormir.

Aguilhoado pelas traições da esperança,
quero cair num longo sono de criança,
que sufoque o desespero que me abrasa.

É com a dor dos derrotados,
que volto a casa.

Leve, se descobre a manhã



Leve, se descobre a manhã.
Da noite clara ficou
o orvalho e a luz
(mel do estio)
derramada no céu.

Foi o silêncio?
Que véu nocturno fez tremer o sono?
Que canto triste nos impediu de sonhar?

Há certa hora,
curta,
serena,
em que o olhar se apazigua
e a dor fenece como a Lua:
- Devagar

De novo a rua...



De novo a rua...
Desperta livre, em mim, sangue vadio,
corro vielas, respiro o rio,
falta-me a noite,
vivo a Lua!

É preciso esquecer, por mais que custe,
Rebentar de esquecimento!
Tragar a taça do veneno num momento,
sacudir o desengano e o embuste!

Esgotemos então o fel da amargura
e deixemos morrer a primavera...
Para quê ficar a vida à espera,
se o sonho está morto e não perdura...

E, por isso, bebamos companheiros!
Ao funeral dos ideais com que vivemos,
aos grandes projectos que perdemos,
aos miseráveis, aos amigos verdadeiros!

Na luz vermelha



Escrevo,
no silêncio sanguíneo da noite,
entre sombras vivas desfilando, no céu trágico.

Assim me ergo
acima da morte agitada no ar,
por chicotes suspensos de árvores negras.

Espero a manhã
enquanto a lua corre velada,
afrontando no rosto os vitupérios do vento.

Escrevo,
sonâmbulo,
na luz vermelha das sibilas e dos astros,
contra o terror cego, que vagueia pelo campo.

Paira no céu...



Paira no céu um grito de agonia,
de tantas vozes,
esvaecidas pela dor,
e grita o sangue,
oferecido a um deus melhor,
sobre o altar, onde ardemos dia a dia.
Que venha o gelo da noite eterna,
e, predador,
nos colha a alma,
a feche na urna fria,
pois sobre a terra não há tempo para o amor,
e a taça da amargura, está vazia.

Manuel Filipe

Hoje, amanheci



Hoje, amanheci mudo, em frente ao mar:
- O abismo, onde os prodígios se resguardam,
abriu-se, transparente, e o sol entrou.

Eflúvios de coral e espuma de oiro
iluminaram, então, mastros em cruz,
pois era o dia dos milagres revelados,
e das gaivotas tecerem véus de luz.


Manuel Filipe

No vento

Quero partir, já!
Agonizo, como ave agrilhoada,
sufoco numa gruta viciada,
Fugir de cá!

Para shangri-la!
(Já esmurro as grades em fúria demente)
arrastado em ciclone ou na corrente,
tanto me dá!

A todo o pano!
Na ponte, ou clandestino num porão,
estrela cadente, noutra dimensão,
não há engano!

Manuel Filipe