2006-03-09

Entrámos hoje na época glaciar! Festejemos!




2006-03-08

Do it yourself

SUGESTÕES:

Tanto(a)

1- Azul
2- Luz

1- Esquecido(a)
2- Perdido(a)

no

1- Lume
2- Fundo

do(a)

1- Mar
2- Alma

(Garantidas dezasseis frases poéticas)

2006-02-27

Uma justificação

A criação deste blog, foi o acto desinteressado do amigo Ognid, em apoio à edição do meu livro de poesia. Na falta de um editor/distribuidor que não mendiguei, e, sem a benção de qualquer papa ou bonzo cultural (deveria dizer agente), de que talvez não fosse sequer merecedor, este projecto era menos que uma utopia.

Não frequento salões literários, (nem casas de putas, diria a má língua) e, por isso, o mundo dos blogues foi para mim uma descoberta fascinante de gente viva que partilha humores, sensibilidades e afectos, sobrevivendo assim ao chiqueiro sócio-cultural em que se transformou a nossa terra.

O blog "Poesia de Manuel Filipe" é contudo limitado no tempo, e, brevemente, desaparecerá.

Evidentemente que as afinidades criadas, propiciam encontros, jantares e convívios poéticos, mas a esses sou avesso, por defeito e por feitio. O acto de criação, ou o desfrute do poema, é um estado de alma profundamente solitário, em que cada um se confronta com os próprios e alheios fantasmas, numa atitude de deslumbramento, gozo ou terror, mas nunca de comemoração. O resto são patuscadas saudáveis, de amigos que se estimam.

Na minha passagem por este universo, quero deixar um obrigado pelas palavras (sempre as palavras...) que me dedicaram o infatigável Ognid, a Lmatta, a Lique, a Encandescente, o OrCa, a Wind, Adesenhar, Paperlife, Tecum, Maria Papoila e outros, tantos que não caberiam nestas curtas linhas, mas que partilham a mesma alegria inconformada.

A aventura custou-me alguns dias de trabalho e o subsídio de Natal, mas para que serve este, senão para dar prendas à Família?

Em breve a Poesia e as Artes em geral, irão florescer sob o olhar cândido do Guarda Aníbal, (não esqueci que Maria é poetisa...) e, por isso, este blog vai-se autodestruir em grande espectáculo pirotécnico, na dia da sua presidencial tomada de posse, festejando, ao contrário das previsões dos climatologistas, o advento da Nova Glaciação.

Se mais tarde, alguém me quiser encontrar, estarei provávelmente a divagar nas naves da Catedral, ou, quiçá, Em Linha Recta...

Até um dia destes

Manuel Filipe

2006-02-22

Sinais



Como o farol
sobranceiro aos vendavais,
teu rosto absorto
envia mudos sinais.

Imagem: Ilya Shubin

2006-02-21

O pequeno carrossel



Que imperecível tristeza emanava
do pequeno carrossel, feio e deserto?

Na praça, salpicada de confetti,
de melodias saltitantes e de cor,
onde estão os meninos-cavaleiros?

Rodopiou vazio, subiu, desceu,
o velho carrossel descolorido,
os miúdos abalaram e cresceram
e toda a gente está já fora deste mundo...

Mais uma vez partiu, ouviu-se o sino,
esvaneceu-se o fogo das lanternas,
girou no espaço, cegamente, sem destino,
num alvoroço de crianças e de estrelas.

Imagem: Catedral

2006-02-20

A porta dos silêncios



Nesta porta dos silêncios, onde entrei,
de maravilha em maravilha fui passando
e, quando o tempo, a pouco e pouco foi parando,
cegou-me a luz, pesou-me o corpo,
regressei.

Talvez mais tarde, na quietude da alvorada
do justo dia,
da precisa madrugada
em que no céu, se recortar a sombra esguia
do peregrino, percorrendo a mesma estrada,
as aves romperão em alegria
pela porta, novamente franqueada.

Imagem: Catedral

2006-02-17

Comunhão



Comungam com a terra
as gotas que, lentas, tombam dos beirais
os frágeis regatos, renascidos na serra,
as folhas outonais...


Imagem: Mintegui

2006-02-16

À espera



Ainda te espero,
num dia em que a alma se vista de azul.

À esquina do tempo, procuro o teu rosto
entre milhares de outros,
definitivamente iguais.

Ainda te espero,
em jardins esquecidos, no negro paúl,
perdido num cais.

Os meus olhos febris
revolvem o livro que nunca escrevemos
e que mudo me diz que não morreremos,
pois ainda te espero.

Deliro na treva, desces no luar
que me assombra as noites
e acordo ao teu lado.

Grita-me o silêncio,
qual sino a dobrar
que o fim está para chegar
e ainda te espero.

2006-02-15

Cais de bruma



A centelha de espuma,
o salgado veio, que sulca cada brisa.
A distância,
o pranto mudo,
o cais da bruma,
que escoa a mesma dor que o mar aviva.

Ei-lo!
Manso ou fremente,
o imaginário querer de novo porto.
Na esteira do astro morto,
a ânsia de partir:
- O passo em frente.


Imagem: Catedral

2006-02-14

O porto do esquecimento



O porto do esquecimento,
onde se acolhem os veleiros condenados,
está sempre imerso na luz baça,
que esconde dos olhos de quem passa,
a memória dos poetas desterrados.

O porto do esquecimento,
onde o oceano conversa com as gentes,
tem fantasmas de baleeiros,
tabernas de marinheiros,
histórias de sereias e serpentes.

O porto do esquecimento,
de faróis há muito apagados, pelo vento,
tem lanternas que chiam nas correntes,
e acordeões chorando em tons dormentes,
deixam morrer no ar o seu lamento.

O porto do esquecimento,
existe entre a vida e a morte, entre a noite e o dia,
parado, sem marés nem luas.
Os sonhos andam pelas ruas,
perdidos na névoa da fantasia.

O porto do esquecimento,
fica para lá do fim do mundo e aqui ao lado.
Passada a fronteira das mágoas,
serás chamado pelas águas,
e o segredo do porto, desvendado.


Imagem: Catedral

2006-02-13

A invenção das estrelas



(à modéstia de alguns notáveis)

Foi bastante anterior
ao teu genial lampejo
a invenção das estrelas.

Quando a luz te iluminou
já o divino criador
extinguira milhões de velas.

Não é imortal quem quer
por mais que um forte desejo
o faça crescer, crescer...

Para mim,
que vim, mas vou,
és um exacto sobejo.


Foto: Alexander Khavanov

2006-02-10

Naquele dia



Naquele dia, um vendaval opôs-se ao mar,
vindo da terra, ventre quente, alvoroçado,
cobriu de areia rochas vivas e destroços,
e o ar incandesceu, iluminado.

Naquele dia, o mar cegou de luz,
quando, hialino, se ergueu na sua cava,
porque um vento requeimado dispersou
as ondas, desfeitas em chama brava.

E por isso, o sol esplendia em cada gota,
e cada gota, envaidecida, rebrilhava...

2006-02-09

Coruja



A coruja pergunta-me da vidraça:
- Porquê, tão cedo,
a noite?

2006-02-08

Nocturno com velas



Lívido mar,
lívidas velas...
Todas as estrelas
desaguam no luar.


Imagem: Catedral

2006-02-07

Check-up



Quando eu morrer
emoldurem-se em talha dourada
todos os meus atestados de sanidade física
(que não mental).
Sangue - normal.
Tórax - normal.
Barriga - normal.
Tudo normal!

Hipertensão arterial?
Não!

Sabem que às vezes o coração pára de correr?
De solidão?
De nojo?
Sem razão?


Imagem de Zindy

2006-02-06

Última hora



(Para José Saramago)

Eis o rancor sedimentado em sangue,
a nova guerra,
ciclo infernal reinstalado,
os convocados por Deus à dura gesta
de traficar pedras de Satã pelo mundo inteiro,
e que por isso cada dia se lamentam,
sacudindo ridículas barbas e trancinhas
contra o alto muro que fatalmente os distancia
dos crentes de Alá,
a boa gente
que esconde as mulheres,
as apedreja,
ou se faz explodir num mar de tripas,
todos esperando alcançar a luz eterna.

A carne humana é igualmente frouxa e desprezível,
quando se pede,
"Javé-Alá, dá-nos a Bomba",
que sem pestanejar detonaremos
sobre as casas e as vidas dos vizinhos.

Debaixo dum céu ominoso
de crescentes e de estrelas,
quem ousará cantar a causa justa?

2006-02-03

Fecharam-se os olhos



Fecharam-se os olhos
e o ar ficou mudo.

Que mortais eflúvios,
que lençol de flores tristes
inundou o céu,
que altares se cobriram
de cinza e roxo?

Que silêncios aflitos deslizam no escuro,
que candeias tremulam,
que corpo arrefece,
que rictos amargos se vincam nos lábios?

Eu vi como a morte sorriu da janela,
se vestiu de luz, penetrou na casa...

Eu vi ela pôr-te a mão sobre a fronte,
depois, mansamente, levou-te com ela.


Imagem de László Farkasel

2006-02-02

Sombras



Vi a tua forma esguia
como a chama de uma vela,
fogo que tremeluzia,
luz que as sombras alongava.

Era noite.
A ventania
batia forte à janela.

Sei que o teu corpo tremia,
sei que o teu corpo queimava
e que ao nascer novo dia
ainda a noite brilhava,


Foto de aniw

2006-02-01

Olhar



Caminhava pela areia
junto ao mar,
mas o olhar
seguia a rota dos navios...

2006-01-31

Ausente



Eu podia estar ausente,
simplesmente ausente
ou nulo,
como corda de viola, por tanger,
sem que nada se prendesse ao meu olhar
ou às mãos,
e que o presente
fosse o instante de esquecer.


Foto de Denis Chaussende